Se por um lado muitos estudos defendem a religiosidade como fator protetor do consumo de drogas, por outro, essa é uma prática muito mais antiga do que se pensa. O conhecimento e manuseio de substâncias psicotrópicas existe desde a Antiguidade, quando alguns povos costumavam utilizá-las regularmente em circunstâncias de caráter religioso.
Talvez o mais conhecido dos casos esteja relacionado à civilização Maia, que tinha em sua religião de Estado o recrutamento de adolescentes entre 13 e 15 anos para realização de serviços dos templos. Os escolhidos eram submetidos a uma iniciação que consistia em engolir algumas “contas” dos colares que os sacerdotes usavam em suas cerimônias litúrgicas. Cada vez que faziam isso, os jovens entravam em transe, permanecendo inconscientes durante várias horas. Depois, narravam o que tinham visto ou sentido quando estavam sob os efeitos das contas. Resumo da ópera: esses adolescentes quase nunca chegavam a completar vinte anos e viviam tendo convulsões. O grande segredo dos sacerdotes estava na origem das contas de seus colares, fabricados à base de um cogumelo abundante no país. Mais tarde, descobriu-se que esse fungo continha um alcalóide conhecido hoje como mescalina, cuja fórmula é muito semelhante ao ácido lisérgico, ou LSD.
Tal como os Maias, inúmeras religiões da época atual seguem o exemplo daquele antigo povo, associando o uso de drogas ao alcance da espiritualidade plena. O fato ganhou repercussão mais recentemente, quando o cartunista Glauco, fundador de uma igreja inspirada no Santo Daime (religião que faz uso de um chá alucinógeno que leva o mesmo nome), foi assassinado por um de seus fieis. Desde os anos 60, pesquisadores e autoridades têm acompanhado o desenvolvimento desse culto. A polêmica ao redor da pratica é tão grande que em 1982 foi formada uma comissão multidisciplinar com médicos, antropólogos, psicólogos, representantes do Ministério da Justiça, Polícia Federal e Exército, para averiguar o fenômeno Santo Daime. Desde então, essa comissão mudou várias vezes sua formação mas sempre concluiu que o Santo Daime não apresenta características do abuso de drogas pelo seu uso ritualístico, descontínuo e ausência de alterações comportamentais.
No Brasil, existem mais de 40 centros oficiais dessa religião, que começou no interior da floresta amazônica, com o neto de escravos Raimundo Irineu Serra (tido como Mestre Irineu pelos seguidores da doutrina). Segundo a própria organização, ele recebeu a revelação de uma doutrina de cunho cristão através de uma aparição de Nossa Senhora da Conceição, depois de ingerir a Ayahuasca (Santo Daime). A bebida, de uso bastante difundido pelos povos indígenas da região, é obtida da mistura do cipó Jagube (banesteriopsis caapi) e da folha Rainha (psicotrya viridis), plantas nativas da floresta tropical.
Mas o Santo Daime não é a única filosofia que faz uso de substâncias alucinógenas em seus cultos. A Igreja Americana Nativa, que integra elementos do cristianismo e dos nativos norte-americanos, tem como foco o uso ceremonial e sacramental do peyote, um cacto entéogeno. A religião americana do Peyote como um fenômeno organizado aconteceu por volta de 1880, nas tribos do sul e planícies de Oklahoma (EUA), que estavam em condições de declínio, de opressão nas reservas. Estima-se que atualmente a Native American Church – NAC conta com aproximadamente 250.000 participantes.
Depois de toda essa explicação, ainda fica a pergunta: o uso de drogas em cultos religiosos é justificável? Comente e deixe sua opinião.
Fontes: BRAHA, Santo Daime e Xamanismo.

Se por um lado muitos estudos defendem a religiosidade como fator protetor do consumo de drogas, por outro, essa é uma prática muito mais antiga do que se pensa. O conhecimento e manuseio de substâncias psicotrópicas existe desde a Antiguidade, quando alguns povos costumavam utilizá-las regularmente em circunstâncias de caráter religioso.
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